Symrise inaugura fábrica no Pará dedicada a produção de ingredientes para cosméticos e fragrâncias

Foi durante um café da manhã de negócios em 2012, na Cidade do México, que o alemão Achim Daub (na foto abaixo), presidente global da divisão de Fragrâncias e Ingredientes Cosméticos da casa alemã Symrise, tomou contato pela primeira vez com o novo projeto da gigante brasileira da beleza, Natura, para a Amazônia. "Eram 7h da manhã quando o Eder Ramos (então presidente da divisão para a América Latina) me pediu cinco minutos para apresentar um projeto. Ele abriu o laptop e me mostrou o projeto do Ecoparque e todo o comprometimento e o trabalho que a Natura estava empreendendo na região. E eu disse: vamos fazer." Pouco mais de dois anos depois, a companhia alemã se tornou a primeira parceira da empresa brasileira no empreendimento, com a inauguração no último dia 21 de maio, da Symrise Amazon. “A Symrise enxergou o trabalho desenvolvido pelo Ecoparque e como ele movimenta a região socioeconomicamente, por isso a aliança com a Natura. Estar no Ecoparque é estar diretamente ligado às fontes mais ricas de matéria-prima orgânica para a perfumaria, perto dos agricultores e da produção nativa da Amazônia”, diz Ricardo Omori, atual presidente de Fragrâncias e Ingredientes Cosméticos da Symrise na América Latina.

A nova unidade começou a operar com dez funcionários, numa área de produção de dois mil metros quadrados. Nesta fase inicial, a empresa fará no local o processamento de manteigas e óleos de ativos da biodiversidade: cupuaçu, cacau, andiroba, ucuuba, murumuru, maracujá e castanha. Na sequência, a empresa vai transferir para lá a sua produção de extratos botânicos – atualmente realizada em Sorocaba, interior de São Paulo – e, até o final do próximo ano, iniciar a produção de novos ingredientes para a indústria de perfumaria. O investimento total na unidade será de cinco milhões de euros (pouco mais de R$ 16 milhões pelo câmbio atual). Toda a produção inicial será destinada à Natura, que mantém uma fábrica de sabonetes no Ecoparque que vai produzir mais de 200 milhões de unidades este ano e tem capacidade instalada para produzir 500 milhões anualmente. A Symrise Amazon também vai abastecer com ingredientes de origem amazônica a planta da Natura em Cajamar, na região metropolitana de São Paulo.

A Natura já destinou R$ 217 milhões até o momento ao Ecoparque, construído em uma área de 173 hectares às margens da rodovia PA 391.  As empresas do Ecoparque terão de utilizar recursos naturais rastreáveis, provenientes de fontes social e ambientalmente sustentáveis, e contribuam para articular a estrutura local de inovação e pesquisa, de forma que o complexo se torne um vetor de novos negócios na Amazônia. Em 2011, a Natura lançou o Programa Amazônia que tem entre seus compromissos aumentar para 30% a utilização de matérias-primas cosméticas originadas da região, beneficiar mais de 10 mil famílias de comunidades fornecedoras e movimentar R$ 1 bilhão em recursos próprios na região.

Transformando vidas, juntos
A proximidade entre as plantas das duas parceiras traz ganhos de eficiência operacional. Mas, segundo ambas, os maiores ganhos do projeto não estão na área de logística, mas sim no desenvolvimento socioambiental que será proporcionado. “É o ganho do engajamento no sonho socioambiental, de trazer um fornecedor importante, de valor agregado para a região e ele nos ajudar a aumentar o consumo de ingredientes dentro das nossas comunidades, de aumentar a demanda de produtos e serviços dentro da região”, explica a vice-presidente de Operações e Logística da Natura, Josie Romero.

Ela explica que a Natura busca para o Ecoparque parceiros que tragam para a região riqueza, repartição de benefícios, empreendedorismo ajudando a empresa a tornar realidade a sua visão de sustentabilidade para a Amazônia. “É claro que a gente tem ganhos logísticos, mas eles são pequenos perto do potencial da transformação que a gente quer fazer na região”, diz. “Nossa intenção é buscar novos ingredientes e trabalhar para  aumentar o volume de produção e, consequentemente, de compras das comunidades. Esse é o nosso objetivo número um aqui em Benevides”, corrobora Eder, que atualmente é o presidente global da área de ingredientes cosméticos da fornecedora.

Todo o relacionamento com as comunidades extrativistas que vão fornecer as matérias-primas para produção na fábrica da Symrise, inclusive a gestão do abastecimento, é feito pela Natura, que dá todo o suporte social e de manejo técnico, além de gerenciar o aspecto operacional das transações. Segundo o engenheiro de alimentos Renato Souza, responsável técnico e chefe de controle de qualidade da Symrise Amazon, o gerenciamento de volume e das safras conta com todo o expertise da Natura com quem a interface é muito grande para o fornecimento. Ele lembra a importância desse trabalho com a comunidade, até porque, não é possível ter uma plantação “domesticada” dessas plantas. “As plantas precisam vir da Natureza, senão é diferente. E para a nossa sorte, a gente trabalha com as safras das matérias-primas e elas se intercalam”, diz o engenheiro, que antes de entrar na Symrise trabalhava numa empresa de extração de oleoginosas também no estado.

Já para o desenvolvimento de novos ativos, um dos pilares da atuação na região, a fabricante de ingredientes irá acessar diretamente às comunidades. Mas depois, a partir do momento da descoberta de novos ativos, a Natura assume a operacionalização de todo o abastecimento. “O mais importante é que eles vão trazer tecnologia e atender toda a base de clientes globais exportando a partir daqui, que é o que a gente quer. A Symrise vai levar matérias-primas que a Natura gerencia para clientes globais e, mesmo para concorrentes, a gente não tem problema nenhum com isso. Pelo contrário, essa corrente transformadora é justamente o que agente quer fazer”, comemora Josie. Eder diz que existe uma expectativa enorme em torno do projeto da empresa na Amazônia por parte de todos os seus principais clientes. “Temos dito a todos que, no momento em que tudo estiver instalado, iniciaremos a nossa ida ao mercado. Isso deve acontecer em janeiro de 2016”, conta.

Outro ponto importante do projeto do Ecoparque é o acesso para que mais pessoas de formação técnica atuem na região. Hoje são cerca de 300 pessoas na Natura e a Symrise vai buscar profissionais de perfil técnico e administrativo para ampliar os seus quadros nos próximos meses. A empresa alemã contou com o suporte da Natura na questão da mão de obra. “Eles tem um projeto em Benevides que é exemplar no cuidado com a Educação e na formação técnica. O que fizemos foi usar essa mão de obra que foi gerada por esse projeto na nossa fábrica”, conta Eder.

Apoiar a educação básica também é um dos objetivos centrais do projeto da própria Symrise no Pará. Um bom paralelo pode ser encontrado no projeto pioneiro da empresa em Madagascar, no continente africano, para o fornecimento de Vanilla. O trabalho começou nove anos atrás quando a empresa, passou a adquirir a matéria-prima diretamente de um grupo de pequenos agricultores locais, com uma abordagem muito parecida a que é utilizada pela Natura na região amazônica. Atualmente, a Symrise compra Vanilla diretamente de sete mil agricultores. Mas não é só. A empresa investiu em um laboratório de pesquisa no país e, principalmente, apoia o desenvolvimento sustentável e de apoio a educação das crianças, cujo impacto vai muito além das famílias dos sete mil agricultores fornecedores.

100% renovável
A fábrica da Symrise no Ecoparque também se alinha a uma meta ambiciosa da companhia alemã. Até 2020, a empresa pretende trabalhar somente com matérias-primas de fontes renováveis, substituindo todas as matérias-primas derivadas de petróleo, ainda um componente importante na indústria de perfumaria e cosméticos. A motivação para assumir tamanho desafio, mais do que uma simples opção de abastecimento ou de custos, é a deixar um mundo melhor para quem chegar ao planeta depois. “Seria muito mais simples e barato ficar com a cadeia de carbono, mas não é isso”, pontua Eder. O executivo conta que a empresa está buscando essas fontes renováveis não só na Amazônia, mas também na Ásia, em Madagascar, na África, além de trabalhar muito fortemente com a cana de açúcar, buscando resolver esse problema para a indústria e perfumaria e cosméticos. Apesar da missão hercúlea, ele acredita que o objetivo é factível, ainda que, para alcançá-lo seja necessário abrir mão de algumas matérias-primas, o que não deve impactar demais dentro de uma paleta com cerca de dez mil ingredientes. “O cenário mudou. Hoje o consumidor quer saber o que está passando na pele dele. Isso não era discutido a alguns anos. E ele também quer saber a origem do produto. Você está muito próximo de chega no supermercado e poder rastrear a origem de tudo”, acredita.

Para alcançar esse objetivo, será fundamental o investimento em tecnologia. E nesse ponto, a operação brasileira, como um todo, terá um papel central. Um dos objetivos do novo plano estratégico da empresa é dotar o quartel-general da companhia, localizado na Granja Viana com um núcleo de competência dedicada ao programa de biodiversidade, além de alguns equipamentos de pesquisa na unidade do Ecoparque. “Assim como criamos toda uma competência em Madagascar, inclusive com a instalação de um centro de pesquisa lá, vamos replicar o mesmo modelo aqui. Estruturar  equipe, laboratório e principalmente parcerias para verificar em conjunto como podemos trabalhar melhor para desenvolvermos novos ingredientes, novas moléculas”, diz o diretor de P&D da Symrise, Adelino Nakano. Além do centro de excelência para a América Latina, a sede da empresa é a base do centro global de Inovação em Haircare da Symrise.

Aqui no Brasil, a ideia da empresa é desenvolver projetos conjuntos de pesquisa entre ingredientes e fragrâncias. O principal pilar para o trabalho será o aproveitamento de subprodutos ou resíduo de processos. “Já mapeamos algumas comunidades para ver como eles trabalham. No caso do processo com frutas, por exemplo, eles fazem sucos, compotas, alimentos, polpas e nisso geram resíduos como a casca, ou sobra um pouco de polpa no fruto. Fizemos alguns ensaios que conseguimos aproveitar esses resíduos e gerar o valor agregado. E estamos tentando sempre  olhar para ver o que pode ter de benefício nas duas áreas – fragrâncias e cosméticos”, explica Adelino. O conceito, aliás, tem tudo a ver como o modelo do Ecoparque que é o de criar uma cadeia produtiva integrada, em que insumos produzidos ou descartados por uma empresa possam ser utilizados na produção de outra. “Vamos praticar o aproveitamento total e não só pegar o que está pronto. Não queremos fazer mais uma coisa que todo mundo já tenha, mais uma commoditie”, emenda Adelino.

Para dar conta da empreitada, a empresa está ampliando o seu time com pesquisadores da Alemanha e do Brasil.

Um dos esforços da pesquisa é o de criar novas moléculas para perfumaria fina no Brasil, algo que a empresa já está fazendo. “E não é óleo essencial. São moléculas mesmo. O óleo essencial faz parte do processo, mas nós realmente queremos desenvolver moléculas, tecnologias de ponta”, confirma Ricardo Omori. A vinda do perfumista francês Maurice Roucel para o Brasil também tem a ver com esse objetivo, já que ele é parte do comitê de desenvolvimento de novas moléculas da casa. A expectativa da empresa é que em dois anos as primeiras moléculas desenvolvidas localmente possam integrar as paletas de ingredientes criativos dos perfumistas da casa ao redor do mundo. 

Investimentos continuam
A abertura da Symrise Amazon culmina com um plano de investimentos que consumiu cerca de R$ 150 milhões ao longo dos últimos cinco anos, com a inauguração do centro da Granja Viana, a ampliação da fábrica da Aromas e Cítricos da empresa em Sorocaba e a própria planta no Pará. Mas o investimento em infraestrutura da empresa ainda não acabou. “Esses investimentos nunca terminam, ainda mais em um mercado tão dinâmico como o mercado de beleza e em um país como o Brasil”, conta Achim Daub. Nesse momento, a empresa está em busca de uma área para construir uma nova planta de fragrâncias, cujo projeto prevê inauguração nos próximos dois ou três anos. A edição Nº 143 de Atualidade Cosmética vai trazer uma reportagem especial sobre os novos investimentos da Symrise no Brasil.




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