Cabelos e água, sempre de mãos dadas?

Cabelos e água, sempre de mãos dadas?
Com problemas hídricos ao redor do mundo, produtos a seco ou de pouca espuma crescem nos olhos do consumidor, indicando uma nova tendência mais sustentável


O shampoo a seco não é um produto novo no mercado, muito pelo contrário. É um segmento já estabelecido, porém, apenas de cunho alternativo para aqueles que precisam de algo rápido, que não envolva um enxágue demorado e que consuma muito tempo. Porém, discussões socioambientais ao redor do mundo implicam numa mudança nos hábitos do consumidor, fazendo com que produtos que não precisem de água ou requerem uma quantidade menor e mais eficiente, ganhem espaço. Pesquisas da Euromonitor International mostram que consumidores mais preocupados com a sustentabilidade dos produtos são aqueles de países sofrendo as maiores crises ambientais. No caso das crises hídricas, Índia, Indonésia, Brasil, países do Oriente Médio e Tailândia figuram entre os que tiveram maiores mudanças em hábito de consumo. Porém, problemas de abastecimento de água não são momentâneos, pelo contrário. Segundo o Fórum Econômico Mundial, as crises hídricas ao redor do mundo lideraram a lista de maiores problemas a longo prazo de 2015, e isso implica numa grande mudança de hábitos de consumo, principalmente na categoria de haircare.
Falta de água não é nada desconhecido por nós, brasileiros. Em 2015, São Paulo sofreu uma das suas maiores crises hídricas ? se não a maior ?, passando por racionamentos e tendo que recorrer à reserva do infame Volume Morto. Atualmente, a capital do País, Brasília, passa também por um delicado racionamento de água, sem contar anos de escassez na região Nordeste. Internacionalmente falando, o estado da Califórnia, nos EUA, também passou por dificuldades em relação às suas reservas, tendo que adotar diversas medidas para que sua população não fique, literalmente, sem água. Isso gerou uma demanda que a indústria de cosméticos pode atender mundialmente ao investir e trazer novos produtos, fórmulas ou propostas em geral no segmento de shampoos secos ou com baixa espuma. As empresas, ao investirem em pesquisa e produção de produtos assim, podem proteger suas linhas contra possíveis flutuações de mercado decorrentes de aumento de custo da água, uma vez que está mantendo a demanda de produtos de limpeza capilar abastecida sem depender tanto do fornecimento de água.

Além dos interesses financeiros e comerciais, a empresa auxilia com a conscientização e a própria economia de água com o preparo de campanhas específicas para essa questão, relacionando estes produtos à urgência e importância ambiental da questão, dando um caráter mais verde às suas linhas, e utilizando menos água na própria linha de produção. Portanto, investir no segmento de shampoos secos com uma campanha adequada e um marketing bem pensado pode significar também um ótimo ganho reputacional, pois o consumidor também está mais preocupado com questões ambientais, ele se preocupa com os ?selos verdes? nos produtos que consome. Ele quer ver que aquilo que ele está usando em seus cabelos com o mínimo de impacto ambiental possível, e o caráter socioambiental de empresas que se mantém atentas a essas questões agregam um maior valor aos produtos, tornando-os mais procurados pelo consumidor.

Ao contrário de que alguns pensam, a ponta final do processo não é a única que deverá sofrer alterações de mentalidade. O processo de produção em si deverá sofrer uma alteração em seu uso de água, já que é nele que a maior quantidade de desperdício e ineficiência de uso ocorre. Os maiores impactos ambientais ocorrem nessa parte e as indústrias deverão sofrer mudanças nisso, principalmente nos países que estão já passando por crises de abastecimento. Países africanos e do Oriente Médio, principalmente, já estão pensando em começar a utilizar alternativas vegetais como água de coco em suas linhas de produção, reforçando o caráter sustentável e reduzindo o impacto ambiental. Lugares esses, também, onde a água é escassa e a população não possui poder aquisitivo suficiente para fazer uso de shampoos de muita espuma ou que envolvem uma grande quantidade de água em seu processo de fabricação, implicando um aumento tanto no seu preço final, quanto na sua pegada ecológica.

Conceitos adicionais
Mais do que atenção para as questões hídricas mundiais, o uso de shampoos secos ou com menos espuma abordam também o No Poo/Low Poo. Esse conceito se originou quando consumidoras começaram a rejeitar o uso de sulfatos na formulação de seus shampoos, um ingrediente muito comum, mas que muitos afirmaram ser prejudicial aos cabelos, principalmente ao público cacheado. O sulfato presente em muitas formulações é o ativo responsável por uma limpeza mais profundas nos cabelos, indicado principalmente para cabelos mais oleosos. Mas as formulações livres de sulfato implicam em menos espuma, carregando consigo uma necessidade muito menor de água e, posteriormente, se integrando também com shampoos secos.

Em resumo, o útil uniu-se ao agradável. Enquanto procurava-se uma alternativa menos agressiva de limpeza para cabelos que não precisavam de um controle profundo de oleosidade, surgiu uma solução para um problema muito maior, o de abastecimento de água. A soma desses fatores elevou o que antes era um nicho para um novo hábito de consumo e, mais que isso, uma oportunidade maior de expansão de negócios para as indústrias. Porque, primeiro, ao se alterar a forma de produção para o menor uso de água possível, se corta gastos. Segundo, se protege sua própria linha contra flutuações de mercado decorrentes das crises hídricas ao redor do mundo, trazendo maior segurança para a operação da empresa. E, por último, se adapta os produtos e as linhas para a mudança de hábito e mentalidade do consumidor, que agora não busca somente uma boa limpeza ou praticidade no seu dia a dia. Esses fatores ainda estão presentes em sua procura por um produto, mas ele também quer ter certeza de que aquilo que compra está sendo feito de maneira responsável ambientalmente.

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