A pele pós-pandemia

A pele pós-pandemia

Qual o impacto a médio e longo prazo da pandemia sobre a condição da pele e como isso pode levar a indústria a repensar a forma como aborda e desenvolve seus produtos 


Nunca “agredimos” tanto a nossa pele quanto nos últimos meses. Com a necessidade de se proteger contra a Covid-19, passamos a tomar mais banhos e o número de lavagens das mãos multiplicou-se exponencialmente, assim como as vendas de sabonetes com apelo antibactericida. Um estudo da consultoria Kantar Insights realizado entre 14 e 17 de agosto do ano passado, com 503 pessoas de todo o País, 79% dos brasileiros se autodeclararam muito cuidadosos com as medidas de higiene e proteção contra o novo coronavírus. Não bastasse esse uso intenso, as lavagens de mãos são intercaladas com a aplicação de álcool em gel. 

O impacto imediato disso para a pele foi o esperado: um aumento substancial nos casos de dermatite de contato, dermatite atópica além do aumento da sensibilização da pele. Tão logo os dermatologistas puderam voltar a realizar o atendimento presencial, ou mesmo com a implementação da telemedicina, foi possível constatar os efeitos das novas práticas de higiene diária. “Os quadros de dermatite de contato pioraram bastante. As pessoas ficaram muito ansiosas e lavavam as mãos a toda a hora, acabando com a barreira natural da pele. Isso ficou muito prevalente”, diz o dermatologista Daniel Cassiano, da Clínica GRU Saúde e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Ainda assim, a intensidade da agressão desse uso crônico foi muito além do que os testes clínicos e dermatológicos realizados para a avaliação e liberação desses produtos alcançam. O uso excessivo de álcool e sabonete por quem está na linha de frente do combate à pandemia gerou níveis de ressecamento na pele das mãos em um nível absurdo, segundo Ricardo Piccoli, gerente regional da área de proteção de produtos da Symrise. “O cuidado para não se contaminar levou a uma aplicação excessiva de produtos que, na prática, não são adequados para o uso crônico”, diz o executivo.

Logo que apareceu a pandemia, a busca por ingredientes para produtos de assepsia disparou. Todas as empresas queriam (ou precisaram), lançar álcool em gel e outros produtos antissépticos e com ação contra bactérias e vírus. Isso fez com que muita coisa formulada não seguindo os melhores protocolos de segurança cosmética acabasse no mercado, para não falar em produtos produzidos de forma clandestina mesmo. O problema acometeu todos os países. A capacidade de produzir álcool de uso cosmético era limitada e passou-se a vender, de forma irresponsável, álcool não tratado para álcool em gel. Naturalmente o álcool contém ácidos orgânicos que induzem processos de irritação. “Nos Estados Unidos foram encontrados produtos com metanol, que causa danos irreversíveis. Aqui, encontramos benzeno no álcool em gel. Isso agravou a questão de dermatite de contato”, lamenta o gerente da Symrise.

O uso de máscaras, outra marca desse momento crítico, também desempenha um papel importante na ampliação dos quadros de dermatite, pela compressão que causa. Dados de um levantamento realizado entre 28 de maio e 15 de junho pela consultoria britânica Mintel para a Beiersdorf, dona das marcas Nivea e Eucerin, apontam que 83% dos brasileiros diziam usar máscara em público. “Enxergamos mais lesões e um aumento da oleosidade da pele, que começa a se comportar de forma diferente não só pela condição de stress (N.E.: algo do qual falaremos mais à frente), mas porque existe um aparato que comprime boa parte do rosto”, explica a dermatologista Ana Coutinho, diretora Médica da francesa Pierre Fabre, dona das marcas Avéne e Darow. 

As máscaras também impactaram no aumento de casos de Acne por conta da maior oclusão da pele. Outro desdobramento do uso da peça de proteção é o aumento da oleosidade, e não só no ponto da máscara, mas por toda a face e nas áreas pelosas também. Ambas as condições já eram críticas para a população daqui. Pesquisas da Beiersdorf indicam que 36% dos brasileiros afirmam ter a pele oleosa, enquanto 35% garantem sofrer com a Acne.

Outro fator de bastante razia para a pele, os produtos de limpeza da casa também foram utilizados de forma mais intensa nos últimos meses. Muitos consumidores que recorriam a outros profissionais para cuidar dessas questões em sua casa, ao menos uma vez por semana, deixaram de contar com esse apoio e assumiram o cuidado mais pesado do lar no dia a dia.

Como se espera que o atual estado de pandemia persista, pelo menos, por boa parte de 2021, os atuais hábitos de higiene para conter a doença devem se manter. Mas esse é apenas um dos lados do problema, muito provavelmente o mais pontual de todos eles. “Sem dúvidas, a situação atual vem gerando impactos na saúde da pele, porém acreditamos que a maioria seja ocasionada pela mudança no estilo de vida frente ao novo contexto e, portanto, esses efeitos tendem a ser transitórios”, acredita Roseli Mello, Head da área de Pesquisa e Desenvolvimento da Natura.

Ainda que transitória, o fato é que isso ajudou a acelerar algo que já era compreendido pela maior parte dos formuladores como necessário, mas que ainda representa um desafio para as empresas: investir em formulações mais limpas e menos agressivas à pele e ao meio ambiente. Mais do que uma questão técnica, este é um problema de custos e, antes de tudo, uma decisão de negócios dos líderes empresariais, já que para o bem ou para o mal pode implicar em uma mudança de posicionamento de mercado.

Aspectos ambientais
Por meses, milhões de brasileiros conviveram (e no momento em que este texto é finalizado, deveriam continuar) com restrições de mobilidade. Com boa parte das pessoas trancadas em casa por longos períodos a exposição solar, por exemplo, diminuiu e isso também foi percebido nos consultórios. “Os casos de melasma apresentaram melhora, já que as pessoas quando saem usam a máscara, uma barreira física que diminui a incidência de radiação solar no rosto. Foi possível ver manchas mais claras na área da máscara e mais escuras na testa”, conta o dermatologista Cassiano. Mas esse também é um efeito pontual, transitório. Tão logo as pessoas voltem a se expor, as manchas na pele tendem a escurecer caso as pessoas não tenham o devido cuidado. O que pode ser um problema, uma vez que nesse período também o uso de proteção solar diminuiu. 

A queda na venda de protetores solar foi uma realidade durante a pandemia em todo o mundo. Mais do que o baque nas vendas em si, o que mais preocupa os profissionais é a quebra do hábito de uso, ainda mais num País que valoriza a cultura do bronzeado e cujas vendas de proteção solar se concentram entre o final de dezembro e meados de janeiro, exclusivamente por conta da ida de muitas famílias às praias. Mesmo que no Brasil o Sol brilhe forte por todo o ano, a penetração da categoria ainda é baixa. “Nem todo mundo assimilou o uso do fotoprotetor como deveria e a quebra desse hábito, muito em função do fato de estarmos mais dentro de casa e de que perdemos os horários de saída e retorno, que ajudavam a regular a rotina de uso, pode ser um problema”, explica Ana Coutinho. A médica da Pierre Fabre lembra que o protetor solar precisa ser encarado como um produto de uso corriqueiro, especialmente para pessoas que estão passando por algum tipo de tratamento e que estejam com a pele mais sensibilizada. Daniel Cassiano recomenda o uso de proteção solar para uso em casa para os seus pacientes com melasma, por conta da radiação solar que entra pelas janelas do imóvel, por exemplo. Mas ele é categórico em relação ao uso do produto por pessoas sem alguma condição de pele específica e que estão em casa. “É um erro usar filtro sola sem ter a exposição solar”. Apesar de parecer obvia, a afirmação do médico tem implicações diretas sobre um claim cada vez mais utilizado pela indústria de proteção solar e cuidados faciais: a proteção conta a luz azul emitida pelas telas de celulares e notebooks, por exemplo. Em tempos de home office generalizado, passamos a ficar ainda mais tempo à frente dessas telas, aumentando o nível da polêmica sobre os reais impactos gerados diretamente por esse tipo de radiação sobre a saúde da pele.

A mente afeta a pele
Diz-se que nossas emoções não têm para onde escapar, elas só podem ir parar na nossa pele. A nossa derme começa a se formar no embrião a partir do mesmo tecido que dá origem ao cérebro, daí a ligação tão direta entre a situação emocional de uma pessoa e a condição da sua pele. E nenhum evento nas últimas décadas abalou tanto o emocional do mundo como a crise do coronavírus. 

Os altos níveis de stress e ansiedade gerados por essa situação foram perceptíveis nas clínicas dermatológicas. A maioria das doenças inflamatórias piorou. Quadros controlados de Acne, Rosácea e Vitiligo apresentaram piora durante os meses de confinamento. “Doenças inflamatórias ficam exacerbadas nessas situações e podem servir de gatilho para várias disfunções cutâneas inflamatórias, tornando a pele mais reativa e propensa às irritações”, conta Roseli Melo, da Natura. Assim como aconteceu com outros aspectos da condição da pele durante a pandemia, com a situação se reestabelecendo, os quadro tendem a melhorar. “O que acontece no caso das doenças inflamatórias é pontual”, acredita Cassiano.

2020 também obrigou muitos de nós a realizar uma mudança radical no estilo de vida (fato que não pode ser analisado de forma isolado, inclusive do aumento dos níveis de stress e ansiedade). A alteração nos horários de ida ao escritório e à escola, além dos cuidados do relacionamento com a família influenciou na rotinas de cuidados, além da alimentação e do sono. O impacto disso sobre a pele é tão ou mais direto que o de qualquer produto cosmético de uso tópico. “A alteração no ritmo e nos horários de sono e vigília durante o ciclo do dia e da noite, o ciclo circadiano, impacta muito a pele, podendo inclusive agravar algumas doenças cutâneas crônicas”, lembra a executiva da Natura.

Isso é o que faz o cosmetológo Carlos Praes, sócio da consultoria especializada em inovação e desenvolvimento de cosméticos Innova Beauty, questionar, por exemplo, o conceito do “mascne”, como fruto exclusivo da oclusão e da compressão gerado pelo equipamento de proteção. “A alimentação impacta muito mais a questão da Acne e da oleosidade da pele do que qualquer produto tópico. E se as pessoas, mais ansiosas e estressadas, passam a comer alimentos mais gordurosos, por exemplo, isso impacta tanto quanto o uso de máscara”, pontua Praes.

Essa somatória de manifestações na pele, oriunda de ações físicas e emocionais, de dentro para fora e de fora para dentro dela, vêm em resposta a esse momento da crise. E por todos os fatores listados acima, o que se tem é uma espécie de guerra, composta por diferentes batalhas. “A grande obrigação da pele é a de ser um sistema de defesa e hoje, as vejo lutando pela imunidade”, afirma a cosmetóloga e pesquisadora Sônia Corazza, que diz ter percebido, de março de 2020 para cá, um aumento na disfunção da barreira epidérmica e uma desregulação microbiológica na condição da derme. “Se o sistema da pele está avariado, esses episódios viróticos abrem espaço para o avanço de bactérias oportunistas”, explica a cosmetóloga.

Uma guerra costuma ter começo, meio e fim. Dado a natureza da situação atual, boa parte dos efeitos para a nossa pele gerada pela crise atual também hão de passar. Mas como em toda guerra, a decretação do seu fim por um grupo de políticos ou burocratas não implica na retomada imediata da normalidade. Pelo contrário, à destruição segue-se um longo período de reconstrução, sem falar de que algumas sequelas são duradouras, isso quando não afetam o quadro de forma permanente. Ainda que a maior parte dos impactos percebidos na pandemia sejam reconhecidamente pontuais e transitórios, não se pode crer que as condições da pele, e do mercado, retornem ao quadro que existia até o final de 2019. “Não acredito em volta para nada. Você mexeu no jogo de palitinho. Quando algo acomete o mundo inteiro, não dá para pensar que o que funcionava antes continua de pé”, acredita Corazza. ,E no atual contexto, os próprios produtos de higiene pessoal de uso mais corriqueiro, como sabonetes e sabonetes líquidos, além do próprio álcool em gel, estão entre os primeiros a serem repensados. Para a Head de P&D da Natura, o aumento da frequência da higienização das mãos veio para ficar e esse novo hábito é positivo. Melo lembra que a lavagem excessiva das mãos com detergentes e sabões, ou mesmo o uso excessivo de álcool para a desinfecção, podem ocasionar uma “delipidização” excessiva da pele, ou seja, a retirada dos lipídeos que compõem a barreira de proteção natural, o que causa ressecamento e deixa a pele mais vulnerável. “Mas, sob o ponto de vista de P&D, é possível formular produtos com ingredientes de limpeza eficazes e suaves, que higienizam sem causar danos na função da barreira cutânea”, garante a pesquisadora.

Logo após um primeiro movimento avassalador pela busca por produtos de higiene, veio um segundo cujo aspecto principal foi por encontrar soluções de assepsia alternativas, que ajudassem a suavizar os danos gerados pelo uso excessivo dos produtos e, na medida do possível, ajudar a pele a se recompor, adicionando ingredientes que pudessem ofertar mais emoliência e hidratação aos produtos de limpeza da pele. “Você não precisa usar um sabonete antisséptico. Sabonetes com pH mais próximo da pele são mais eficientes. Existem fabricantes que estão usando álcool em gel com glicerina”, exemplifica o dermatologista Cassiano.

Formulações mais leves, produtos mais holísticos
Saindo da questão dos produtos de pele mais afeitos à higiene e olhando mais para a questão dos produtos de cuidados e tratamento, mais do que recomeçar do zero, o que se depreende da atual situação é um desejo (ou uma necessidade) de se acelerar movimentos que já vinham acontecendo no mercado. Assim como em outras áreas, mais notadamente na transformação digital, o fatídico “novo normal” não traz nada de verdadeiramente inédito. No caso dos cosméticos para a pele, vale o mesmo: temas como clean beauty, química verde e cosméticos que promovam (de verdade) o bem-estar por meio de ingredientes inteligentes e uma abordagem holística, que já eram temas de evidência em todos os relatórios de tendências, ganharam muito impulso. 

Essa movimentação também se reflete no avanço de uma abordagem mais moderna para o approach do desenvolvimento de produtos, na qual se busca ajudar a microbiota da pele a reforçar suas defesas naturais. “Cada vez mais a gente vai ter que contar com o nosso sistema imunológico. E para isso é necessário abandonar a filosofia de combate e adotar a de ser amigo da pele, copiando o que ela já faz, naturalmente, para resolver o problema”, pontua Corazza. Só que como diz a própria cosmetóloga, a pele mudou, o ambiente mudou e isso afeta todo o nosso sistema imunológico. “A cada 28 ou 32 dias, as células da epiderme se renovam. Certamente a pele mudou, com uma produção ácida maior para resgatar o manto ácido da pele, e a reologia dos cosméticos mudou junto”, emenda.

Desenvolver fórmulas mais próximos da naturalidade, do nosso organismos e de fonte mais seguras é uma tendência forte de toda a indústria. Peles acometidas por dermatite atópica são menos capazes de se proteger deixando as pessoas mais expostas a agentes inflamatórios e poluentes. “São pacientes que já tem uma barreira cutânea geneticamente deficitária”, explica a diretora Médica da Pierre Fabre. Na dermatologia atópica, principalmente nos quadros inflamatórios onde se vê melhor o quadro de alteração da microbiota, quanto mais se reforçar a própria natureza dela, melhor. “O caminho não é o antibiótico, o antisséptico tópico mas sim produtos que ajudem a manter a saúde dessa microbiota, sem que você precise intervir”, corrobora Ana Coutinho. No caso da marca Avéne, a médica explica que tudo passa pelas pesquisas com a água termal de Avéne, onde se extraiu a aquabulimia, uma flora que faz parte da composição dessa água. “Dessa flora se extraiu um ativo que tem atividade imunomoduladora, uma partícula responsável pela resposta inflamatória crônica desses pacientes, capacidade de regeneração mais rápida. Evitava risco da coceira constante e o risco de infecção decorrentes dessa coceira. É uma atividade mais inteligente, que age para agir na base da doença, diminuindo essa resposta e trazendo mais qualidade de vida para essa pele”, define Coutinho.

O uso de hidratantes com ingredientes de reparação da barreira da pele, como manteiga de cupuaçu ou o óleo de castanha, capazes de repor a barreira lipídica e com ingredientes prebióticos para auxiliar na restauração da microbiota saudável da pele. “Os itens da linha Tododia também tem como principal diferencial a nutrição prebiótica, uma fórmula única e inteligente que se adapta às mudanças da pele deixando-a mais firme e ultramacia”, garante a Head de P&D da Natura. 

A abordagem mais moderna de cuidados com a pele não deixa tudo nas mãos da ação tópica do produto, ou mesmo, nas mãos só do cosmético em si. É preciso entender o cuidado de forma mais holística. Assim, dormir bem é tão importante para a saúde dela quanto aplicar um creme cheio de tecnologia. Sendo assim, porque a indústria não pode desenvolver fórmulas que ajudem o nosso corpo a cumprir com sua função? Que ajudem as pessoas a dormirem bem, por exemplo. 

Isso também já era algo percebido antes da própria pandemia, até porque os desequilíbrios na microbiota é que geram os problemas para que a pele desempenhe a sua função de proteção e esse desequilíbrio é provocado por diferentes contingências, da qualidade do sono à alimentação, que já eram problema antes da pandemia. “Já estamos na busca por moléculas, para tomar e aplicar, e que vão nos proteger”, garante a diretora Médica da Pierre Fabre. “Especialmente em casos de doenças crônicas inflamatórias, que já tem desequilíbrio de longo prazo, se vê muito claramente respostas gradativas de recuperação da microbiota. Os resultados são muito robustos”, emenda.

“As bactérias estão na nossa pele para manter a nossa capacidade de adaptação a variações externas. A dieta interfere muito mais na microbiota da pele do que qualquer produto de uso tópico. Quem deixa de comer carne abruptamente, por exemplo, em muitos casos vai desenvolver um problema de pele, porque a microbiota vai seguir dentro daquele parâmetro por algum tempo até conseguir se adaptar”, explica Ricardo Piccoli.

Com tudo o que está acontecendo e essa visão mais global do cuidado com a pele, a arquitetura de cuidado com a pele muda? “Para mim, já mudou”, garante Sônia Corazza. Ela dá como exemplo o produto SOS Noite, da indie brand Riô Biocosmetic. O produto tem ação na derme, mas também uma ação neural, colocando a pele “para dormir”. A ação do produto diminui a atividade mitocondrial. “Você precisa formular olhando para o todo. Você espirra um produto no rosto para dormir melhor, dorme e acorda com a pele melhor. O consumidor entendeu que aquilo funciona”, diz a cosmetóloga. 

Tecnologia e formuladores para isso estão disponíveis no Brasil. O ponto central, como já foi dito antes, é que as lideranças das empresas tomem a decisão de agir. “(A liderança) Ainda tem uma visão muito atávica É preciso pensar com a mente aberta para enxergar a vida como ela é hoje. Brasileiros e pequenos empreendedores estão entendendo que a nossa pele é única e começando a acordar para a necessidade daqui. Não adianta olhar para o Coreia, é preciso começar a enxergar o Brasil como ele é e inseri-lo nessa nova realidade”, conclui Sônia Corazza.

A questão microbiológica

Não é de hoje e nem por causa da pandemia que os sistemas preservantes para produtos cosméticos estão sendo questionados por reguladores mundo afora, ampliando ainda mais as restrições à substâncias ainda largamente utilizadas em formulações cosméticas para a pele. Mas essa deixou de ser uma questão meramente regulatória. Há alguns anos que consumidores mais engajados e antenados, também não querem mais produtos formulados com ingredientes como triclosan, paramentos e isotiazolinonas. Agora, essa demanda desce para um público mais amplo e menos antenado, mas que é bombardeado por informações acerca dos eventuais impactos gerados por esses ativos. Embora existam muitos mitos e desinformação sobre alguns desses ingredientes, caso do potencial cancerígeno dos parabenos, um dos preservantes mais clássicos e seguros utilizados pela indústria, é verdade também que o uso contínuo desses itens ao longo das últimas décadas contribuiu para o aumento de casos de sensibilização e maior alergenicidade da pele, e quando a pele está mais fragilizada e sensibilizada, o uso desses preservantes começa a cobrar o seu preço. “Antes dávamos tiro de canhão e fechávamos os olhos”, reconhece Sônia Corazza. 

A cosmetóloga explica que hoje em dia não acredita mais nesse tiro de canhão, justamente pelas consequências que a bala do canhão acarreta, com os dermatologistas e pesquisadores relatando mais e mais casos de dermatite atópica, de contato ou a própria sensibilização da pele. “Por isso, eu não vejo o mercado voltando para eles (os preservantes tradicionais), mas sim caminhando para sistemas mais sutis, pensando no sistema antioxidante”, diz ela, que também traz a tona outro aspecto importante: as bactérias e vírus vão se tornando mais resistentes, o que por si só, também demanda novas abordagens e protocolos.

Um bom exemplo de como a pandemia afetou o quadro microbiológico foi a proliferação de um microorganismo, a burkholderia cepacia, que acomete principalmente pacientes hospitalizados, em especial aqueles com fibrose cística. A bactéria sempre ficou restrita ao ambiente hospitalar. Acontece que com 100 milhões de pessoas contaminadas pelo coronavírus, no mundo inteiro, considerando que entre 10% e 20% dos contaminados precisou ser internado e que essas internações costumam ser de mais de 10 dias, o microorganismo oportunista pegou carona e passou a “se alimentar” da acidez da pele e dos produtos. 

“Diante de um cenário em que muita coisa pode mudar, de pandemia, a manutenção desses pacientes faz com que tenhamos o aparecimento de novas bactérias. É papel da indústria entender o porquê dessas bactérias se proliferam nesse novo ambiente”, acredita Ana Coutinho, da Pierre Fabre.

Um dos problemas atuais em relação a isso é que os testes e protocolos disponíveis não estão atualizados com essa nova realidade, fazendo com que não se saiba de fato se os sistemas preservantes utilizados permanecem eficazes e seguros. Na maior parte das vezes é impossível de predizer o que vai de fato acontecer. “Mesmo fazendo os testes, ainda estamos longe da realidade de uso. E isso falo do mercado como um todo, não só da pandemia”, reforça Piccoli.

A solução desse problema? Primeiro, ampliar o escopo dos testes. Como bem lembra Praes, a regulação exige testes que vão dar conta de avaliar a segurança contra alguns poucos microorganismos, apenas os principais. Mas existem muitos outros que não são cobertos pelos testes regulatórios obrigatórios. Ou seja, as empresas precisam tomar a decisão de avaliar suas fórmulas frente a um escopo mais amplo de agentes contaminantes é exclusivamente delas. “Investir em P&D e inovação de verdade envolve ir além do que a regulação pede”, acredita o diretor da Innova Beauty. Para garantir uma maior segurança aos consumidores, o pesquisador acredita que é importante partir para uma autorregulamentação em relação a esse aspecto. “Não podemos ficar restritos ao que a ANVISA exige. Acredito que ABIHPEC (que representa a indústria cosmética no Brasil e ABC (Associação Brasileira de Cosmetologia) deveriam fazer movimentos nesse sentido”, pontua Praes.

Para além disso, Sônia Corazza acredita que para encarar essa nova era, é preciso mudar o chassi, a base das formulações dos produtos para a pele disponíveis no mercado hoje, particularmente no caso dos produtos de mass market. “É preciso fazer tudo novo e isso demanda dinheiro e compromisso. É algo difícil, mas quem não fizer pode ter problemas”, aponta a cosmetóloga, que diz que esse tipo de alteração radical só acontece quando a água bate no pescoço. E que agora, ela está batendo.

Mudar o chassi de uma fórmula é tarefa das mais complicadas. Não se trata apenas de mudar a formulação, mas sim de refazer todos os testes, obter novos registros e organizar toda a estrutura de custos e a cadeia de suprimentos daquele produto. “No geral, trocar o sistema preservante de um produto é algo muito sério. Ao trocá-lo, abre-se o risco de gerar um dano de imagem terrível para empresa, caso aconteça uma proliferação de microorganismos que não existiam. Por isso existe certo receio”, explica Ricardo Piccoli. Por outro lado, o executivo reforça que existe uma pressão regulatória, e mais ainda, uma pressão do consumidor por alternativas mais modernas. “É um expertise (a questão da segurança microbiológica) que as marcas que ainda não têm precisam começar a desenvolver ou a buscar parceiros bem sérios no mercado para essa tarefa”, emenda. 

A Natura, conta com um grupo de especialistas em microbiologia que está atento a eventuais mudanças em razão do cenário de pandemia para garantir a eficácia dos produtos da marca e a segurança dos consumidores. Mas, Roseli Melo diz que, não se chegou a observar alterações no perfil de qualidade microbiológica dos produtos que demandassem adequações nos “chassis” das formulações. “A Natura tem como compromisso a busca constante por sistemas conservantes naturais, biodegradáveis, suaves e seguros”, reforça.

A abordagem da Pierre Fabre, cuja marca Avéne tem como premissa o atendimento das peles sensíveis e, que por isso mesmo, sempre perseguiu o uso mínimo de conservantes (e mesmo de ingredientes como fragrâncias, que podem cumprir com esse papel), passa pelo investimento em sistemas de embalagem herméticos, sem a menor chance de contato da fórmula com o ar para evitar a contaminação de um produto que se propõe a atender uma pele muito sensível e, naturalmente muito exposta a qualquer patógeno.

Oportunidades estão aí

Globalmente, a categoria de pele foi a menos afetada pela pandemia dentro do universo cosmético, mantendo-se em território positivo e abaixo apenas dos produtos de higiene das mãos. Desde 2018 que os produtos para a pele haviam retomado a liderança no crescimento da indústria de beleza, dos itens de make-up. Aqui no Brasil, entretanto, a participação da categoria ainda é proporcionalmente bem mais baixa do que nos mercados mais desenvolvidos. Quando se considera apenas a categoria de cuidados faciais, a penetração é ainda mais baixa.

O isolamento social teve como reflexo, para muitas pessoas, a busca por rituais de bem-estar e autocuidado. Daniel Cassiano diz que as rotinas das pacientes ficaram mais extensas em relação ao que era e que elas mesmas têm pedido a prescrição dessas rotinas mais completa. “Não sei se foi pela pandemia ou se tem mais a ver com uma evolução e com mais divulgação, mas é fato que uma rotina mais extensa melhora a qualidade da pele e se a paciente enxergar os resultados, ela tende a continuar”, pontua.

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