O desafio motiva nossos pesquisadores

O desafio motiva  nossos pesquisadores

Em entrevista à Atualidade Cosmética, a diretora de R&I da L’Oréal Brasil Cristina Garcia, fala do impacto dessas transformações no trabalho da área e na operação brasileira

A transformação que a L’Oréal se propõe a fazer para a “beleza verde” é um processo de 10 anos.  Da perspectiva de quem desenvolve produtos, é algo que vai sendo desenvolvido de forma tão natural, que daqui a 10 anos será como se tivesse acontecido desde sempre? Qual o desafio quem faz as coisas de um determinado jeito há bastante tempo ter de mudar isso?

Cristina Garcia: Na verdade é um processo e ele não começou hoje. Na verdade, estamos atuando e escalando nesse sentido há mais de 25 anos. Nos últimos 10 anos, nosso compromisso de sustentabilidade, o sharing beauty with all, já trazia algumas iniciativas envolvendo ingredientes, como foi o desenvolvimento do Pro-Xylane, nossa primeira molécula desenvolvido sob o conceito do eco-design. Isso já acontecia, mas vai vir cada vez mais forte. 

Esses processos estão sendo incorporados no dia a dia dos nossos pesquisadores cada vez mais. Claro que temos algumas categorias nos quais o trabalho é mais difícil, como proteção solar e coloração, além de questões regulatórias e de ingredientes que precisam de aprovação. Isso vai levar algum tempo. Mas é uma marcha que vai acelerando, até pela dinâmica do testar e aprender que temos aqui dentro. Na medida em que vamos experimentando e obtendo resultados positivos, isso vai sendo incorporado ao nosso portfólio tecnológico.

Mas o principal é que uma vez tomada à decisão de seguir por esse caminho, agora é o momento de juntar tudo e tornar isso visível externamente. Quando você se compromete com essas metas externamente, não tem mais volta. E pode ter certeza de que é um tópico que motiva muito nossos pesquisadores, entra na agenda deles de forma muito forte.

Isso traz um desafio de comunicação para a área técnica não? Existe muita desinformação sobre vários ingredientes importantes para a indústria, como parabenos e silicones, por exemplo. Mas me parece que a indústria, via de regra, olha para essas ondas e vai atrás. Acabam optando por lançar um produto sem um desses ingredientes “sob ataque”, não raro o substituindo por outro potencialmente mais agressivo ou alergênico. A L’Oréal vai bancar ingredientes que estão em eventuais listas de ingredientes proibidos de influenciadoras?

Realmente existe isso, um movimento de algumas correntes baseadas em coisas muito generalistas. Parabeno, por exemplo, é uma família muito ampla. Existem os que são incriminados e apontados como nocivos, que são os parabenos de cadeia longa. Os que estão autorizados para uso em produtos de higiene pessoal e cosméticos são os de cadeia curta. Fala-se genericamente de parabeno, mas não se atenta para esse aspecto fundamental. Por isso a L’Oréal entende que é necessário retomar essa voz ativa, para explicar que o que usamos é altamente seguro. É a oportunidade de explicar isso. O desafio é trazer isso para uma linguagem mais acessível ao consumidor.

Pelo novo plano da L’Oréal, o objetivo é alcançar um percentual muito alto de ingredientes obtidos de plantas. Como vocês lidam com a questão das plantações transgênicas, ou de culturas nas quais o rastreio entre o que é e o que não é transgênico é muito difícil?

Isso foge um pouco da minha alçada, mas efetivamente todas essas cadeias tem o princípio básico da rastreabilidade delas. Auditamos tudo para garantir efetivamente que a qualidade e a fonte sejam sempre a mesma, sempre confiáveis. Se não me engano, nenhum ingrediente nosso tem origem transgênica.

A L’Oréal sempre foi uma empresa de produtos com foco na eficácia deles? As campanhas das marcas sempre falam em benefícios efetivos do produto. Nessa transição, para mudar fórmulas e trocar ingredientes sintéticos por naturais ou de bioquímica, caso esse ingrediente não alcançar o nível de eficácia pelo menos igual a que se tem hoje, ele fica de fora? 

A L’Oréal é sempre uma empresa de eficácia, mas também de segurança e qualidade. Talvez isso não apareça na publicidade, mas para nós, internamente, são pilares da empresa desde a sua criação. E agora integramos a questão da sustentabilidade cada vez mais. O fato de que não podemos comprometer a performance do produto é mais desafiador ainda tecnicamente. É preciso achar um ingrediente substituto, quando não, rever uma combinação inteira de ingredientes para atingir uma performance equivalente ou até superior. É um desafio. Mas em nenhum momento comprometer a eficácia do produto (nesse processo de transformação) é algo em discussão. Entendemos que o consumidor conta com a gente tanto para ter a performance quanto para ter a sustentabilidade, a qualidade e a segurança. Ele compra as marcas da L’Oréal por isso.

Essa transição é algo que abre espaço para criar algo do zero, para reinventar a forma como se desenvolve produtos? Ou isso é um pouco utópico demais e, ao final, o processo é sempre uma evolução do que já está aí hoje?

Acho que tem que ter os dois. Temos processos como o que chamamos de quick win, que nada mais é do que partir de uma fórmula existente e poder melhorá-la de forma muito rápida, seja substituindo uma matéria-prima, ou encontrando alguma solução para melhorar aquele perfil ambiental da fórmula. Mas temos que ter também a solução totalmente fora da caixa, que permita exercitar o conhecimento e as tecnologias para que realmente possamos se encontrar uma solução totalmente nova. Os dois tem que caminhar juntos. E é isso o que a gente faz. Temos uma área que trabalha mais no curto prazo, no desenvolvimento de produtos e uma parte que atua em inovações muito mais disruptivas por completo.

No Centro de Inovação do Rio de Janeiro, vocês trabalham nas duas linhas, ou o foco está mais nos quick wins?

Temos as duas atividades, com equipes dedicadas, uma olhando para o curto prazo e outra para repensar toda a estrutura.

Na vertente da pesquisa de inovação, quais os focos da pesquisa no Rio?

Nossos dois principais eixos de inovação por aqui são cabelos, pelo tamanho do mercado, suas demandas e a criatividade do País na área; e também fotoproteção, outro eixo forte.

Fotoproteção é das categorias mais difíceis para os formuladores, pela questão dos filtros, do equilíbrio e da sustentabilidade. Essa nova abordagem de beleza verde pode revolucionar o produto protetor solar como a gente conhece hoje?   

É possível que sim. É uma das vias de pesquisa, poder encontrar soluções alternativas para os produtos de hoje. Todas as categorias estão sendo revisitadas e trabalhadas e fotoproteção também é parte desse processo.

Isso envolve pesquisa de novos filtros?

Todo o conjunto da fórmula. Nós não nos colocamos limite do que pode e o que não pode mudar. Investigamos todo o rol de possibilidades até porque o objetivo é chegar a 95% do nosso portfólio formulado por matérias-primas renováveis ou de minerais abundantes. Para alcançar essa meta temos efetivamente bastantes revisitações a fazer.

Nesse novo cenário, de transformação das formulações, os testes de eficácia precisam ser repensados?

A segurança tem que estar no mesmo nível para qualquer ingrediente. E eficácia também. O que pode mudar um pouco é a rotina de uso de produtos, que pode ser um pouco diferentes. Um shampoo sólido (já lançado pela Garnier em vários mercados) oferece uma rotina de uso diferente. Temos que garantir que os testes acompanhem essa nova rotina de beleza das consumidoras. Mas, no final, os atributos que temos que entregar são os mesmos de um shampoo normal. Esses parâmetros continuam os mesmos.

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